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Ressacas Literárias #19 - Memórias Póstumas de Brás Cubas


Geu
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(Capa da edição da Amazon que eu vi em um vídeo do Quadro em Branco e me atraiu a ler esse título)

 

Título: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Autor: Machado de Assis.

Publicação: 1881.

Editora: Originalmente publicado em formato de folhetim pela Revista Brasileira, e posteriormente pela primeira vez em formato de livro pela Tipografia Nacional. A edição que eu li foi a da Nova Aguilar.

Nacionalidade: Brasileira.

Idioma: Português.

 

 

Sinopse

 

O livro narra a história do aristocrata Brás Cubas que acabou de morrer e está, agora no outro plano, escrevendo as suas memórias, por isso são póstumas. Passamos daí então a revisitar os capítulos da vida de Brás e acompanhar suas desventuras e escolhas, as perdas e os caminhos por onde ele tinha trilhado sua vida até retornamos ao ponto inicial, o fim.

 

Minha opinião

 

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) marca a chegada do Realismo na obra de Machado como também na literatura brasileira como um todo. Forma a chamada trilogia realista juntamente com as obras posteriores Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), onde o personagem Quincas chega mesmo à aparecer e participar da história desse primeiro livro. E falando do livro em si, a coisa que mais chama a atenção é a narrativa do Machado que se usa constantemente da metalinguagem referindo-se ao formato dos próprios capítulos, brincando com o formato deles de variados modos, e a consciência do eu lirico do próprio livro, a quebra da quarta parede também é constante e isso nos apresenta uma leitura muito moderna, a despeito de ser uma obra antiga e de assim conter um português mais arcaico, que ainda assim é uma delícia de ler, tem uma narrativa muito boa.

Falando em narrativa, as viradas da história são fantásticas. A proposta do livro de um defunto escrevendo suas memórias após a sua morte e refletindo toda a sua vida, começa de uma maneira muito diferente narrando seus últimos dias, - então começamos já pelo final do livro. Vemos seu próprio enterro e até mesmo sua visão psicodélica do outro plano, para depois seguir as fases primeiras da vida: nascimento, infância, a juventude e os amores, as ambições políticas da vida adulta, as desilusões e erros do personagem, etc. É essa a marca mesmo do realismo, de trazer uma história mais próxima do real que não foge aos pesos da vida, e das escolhas, e nem esconde os defeitos dos personagens. O Brás, ao qual acompanhamos os pensamentos e a história, é muitas vezes mesquinho, arrogante, egoísta, até mesmo quando faz boas ações há ali uma vontade egoística de se sentir bem ou de se sentir um homem mais elevado, ao mesmo tempo que podemos odiar Brás, vemos um relato sincero de si mesmo, onde por vezes o próprio chega até a narrar que fez tal coisa admitindo sua atitude reprovável ou por qual sentimento foi movido, é um retrato fiel, real, da vida completa do personagem principal, e é difícil não refletir em nossa própria trajetória adotando um olhar como esse, também somos muitas vezes como o Brás.

Ainda a falar da narrativa, Machado realmente sabe desenrolar uma história e levar uma história que você pode supor ser limitada a certos limites de um “slice of life” mas que acaba  por nos levar a capítulos muito diversificados tematicamente, você vai ter uma abordagem filosófica aqui, psicológica ali, capítulos que giram em torno de reflexões metafóricas sobre uma simples borboleta por exemplo, e capítulos que estabelecem a história real em si, as  relações e desventuras. 

Por último, é interessante ressaltar que o Machado era um escritor negro, que sofreu historicamente um processo de embranquecimento e só recentemente tivemos o resgate de  sua herança que tentaram apagar. Esse livro em específico, narra não só um aristocrata  branco, como um rol de aristocratas brancos com escravos, o próprio Brás Cubas tem o pensamento da época sobre a escravidão, chegando mesmo a agredir e a fazer juízos de valor  sobre seu criado e sua condição, inclusive desde quando era criança onde, em certa passagem, chega a quebrar a cabeça de uma criada negra e judiar do seu criado, ainda criança, açoitando-o enquanto montava nele como um cavalinho. A verdade é que o Machado faz um retrato da  aristocracia branca da época e satiriza com sua ironia muito singular e afiada essa realidade. Possa parecer a um leitor desatento que descobre que o Machado fora negro que era ali um escritor negro escrevendo uma história de brancos, típica de um escritor branco da época que  não via com maus olhos a escravidão ou que ainda detinha pensamentos de superioridade racial, moldado pela sua própria época (Machado já nasceu livre, mas seus avós sofreram ainda a época da escravidão),  mas tudo está nas entrelinhas, e as entrelinhas são essenciais para ler Machado. Foi meu primeiro livro do autor lido de maneira consciente e com mais maturidade. A bem da verdade eu estudei toda minha vida em escola pública e o contato com as obras da literatura brasileira clássica que deveriam compor a formação de cada um de nós não é bem uma realidade no ensino das escolas públicas e das camadas mais carentes, é um contato muito superficial, quando não acaba sendo um não contato.

 

Passagens do Livro

 

“Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros.”

 

-  CAPÍTULO XXl / O Almocreve - recomendo esse capítulo inteiro, é genial.

 

“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitarse, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.’’

 

“Mas é isso mesmo que nos faz senhores da Terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.’’

 

“Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.”

 

“Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o eco de seus próprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão: — O senhor há de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo; tinha um negócio, que me mordia o espírito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois pediu-me que não referisse a ninguém o que se passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dois deputados e um chefe político da paróquia. Lobo Neves recebeuos com alegria, a princípio um tanto postiça, mas logo depois natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.”

 

“Vê agora a neutralidade deste globo, que nos leva, através dos espaços, como uma lancha de náufragos, que vai dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir um eclesiástico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de Terra, que lhes deu algumas ilusões.”

 

“Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade.”

 

- Tem várias outras, mas aí vocês terão que ler. Eu Já coloquei trechos demais até.

________________________________________________________________________________________________________________________________________________ 

Então pessoal vamos participar do evento, é super simples de fazer e dá pra aliar uma leitura que estejam fazendo agora ou um livro fresco na memória a um exercício de escrita, expressar um pouco nossas opiniões e contribuir pro fórum com uma discussão sobre livros que sempre é bem interessante. Comentem, e obrigado pela atenção.

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Contos: Mitch / RenascimentoPoesia do Geu

      

 

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(Capa da edição da Amazon que eu vi em um vídeo do Quadro em Branco e me atraiu a ler esse título)   Título: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Autor: Machado de Assis. Publicação: 1881. Editora: Originalmente publicado em formato de folhetim pela Revista Brasileira, e posteriormente pela primeira vez em formato de livro pela Tipografia Nacional. A edição que eu li foi a da Nova Aguilar. Nacionalidade: Brasileira. Idioma: Português.    

a obra é sobre um assunto de grande interesse e foi tratada com perspicácia, originalidade e sem sentimentalismo no romantismo. a publicação da novela, à época, foi um ato de justiça reparativa há muito tempo atrasada.   bom trabalho, geu!   edit.: essa opção ilustrada por portinari me parece linda. verei se há uma versão para kindle. 

Já apresentei uma peça teatral na escola (mesmo que encabulado...) sobre o livro em questão. Essa capa faz uma homenagem (horripilante) ao verme da dedicatória que aparece na contra-capa do livro. Parabéns por divulgar a cultura nacional Geu.

Já apresentei uma peça teatral na escola (mesmo que encabulado...) sobre o livro em questão. Essa capa faz uma homenagem (horripilante) ao verme da dedicatória que aparece na contra-capa do livro. Parabéns por divulgar a cultura nacional Geu.

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1 hora atrás, IACOOBVS KAIZEN disse:

Já apresentei uma peça teatral na escola (mesmo que encabulado...) sobre o livro em questão. Essa capa faz uma homenagem (horripilante) ao verme da dedicatória que aparece na contra-capa do livro. Parabéns por divulgar a cultura nacional Geu.

Exato kkk, eu achei bem interessante essas ilustrações, se bem me lembro tem ilustrações internas - pesquisei e tem sim - também no decorrer das páginas, de um artista brasileiro, o estilo é bem único e ele também faz as ilustrações da edição de O Alienista. A Amazon tá com umas versões exclusivas bem interessantes, tem do livro anterior aqui do ressacas também, A Metamorfose, do Kafka.

 

Sim, nossa literatura é bastante rica tanto em prosa quanto em poesia e é uma boa explorar mais ela.

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Contos: Mitch / RenascimentoPoesia do Geu

      

 

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Excelente resenha, Geu. 

Este é mais um dos milhares de livros que eu só não li ainda por falta de capital.

Realmente, Brás Cubas parece ser um peraonagem bem interessante, assim como a premissa do livro. Bom, eu gostaria de me aprofundar mais neste comentário, mas infelizmente eu só conheço a obra de Machado de Assis por alto...

Espero corrigir isto em breve. 

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Posted (edited)

a obra é sobre um assunto de grande interesse e foi tratada com perspicácia, originalidade e sem sentimentalismo no romantismo. a publicação da novela, à época, foi um ato de justiça reparativa há muito tempo atrasada.

 

bom trabalho, geu!

 

edit.: essa opção ilustrada por portinari me parece linda. verei se há uma versão para kindle. :smile:

Edited by Diane Young

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