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A indecifrável


Littlefox
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Luzes acesas, minhas mãos no bolso da jaqueta, e vultos que passavam por mim tão rapidamente como raios. Figuras fugidias; eu não conseguia distinguir entre as pessoas e os faróis dos carros a galgar. Na verdade, não sabia o que estava fazendo ali. Apenas encolhia-me um pouco por causa do sereno lusco-fusco do outono e fitava os pés – estes que moviam-se mecanicamente, sem nenhum dos meus comandos. Flashes e mais flashes, zumbidos de carro e mais zumbidos de carro, barulhos de pessoas conversando e mais barulhos de pessoas conversando. Todavia, eu estava absorta, sem prestar atenção alguma no espaço, tampouco no tempo.


Leve sobressalto. Sentidos cônscios ao mundo externo. Gotas de chuva arremetiam truculentamente a superfície da pista, e a jaqueta escura, a calça, as botas de couro – estavam todas encharcadas. Preocupei-me com os utensílios em mim, e logo apalpei os bolsos para ver se tinha algo facilmente danificável à agua. Não tinha – saíra ao final da tarde para caminhar, trouxera apenas as chaves comigo.


As ruas, agora escuras e desertas, manifestaram-se lentamente diante de mim. Eu tinha a sensação de que estava em algum lugar remoto, ou pelo menos bem longe de casa. A chuva, que me pegara desprevenida, não perdoava; apenas exibia de forma presunçosa o seu aparato pluviométrico, à medida que vertia em meus cabelos escuros, pômulos e lábios. Estava sozinha, e sobretudo, vazia. Aliás, pode-se até dizer que estava vazia justamente porque estava sozinha, completamente sozinha, como sempre estive.


As botas aspergiam para todo lado as poças de água, enquanto direcionava-me ao toldo de uma cafeteria por perto: cogitava a possibilidade de esperar ali embaixo até a chuva passar. Ao me aproximar, no entanto, vi duas silhuetas que já ocupavam o espaço. Eram uma mulher e uma criança, decerto mãe e filho, pela forma que davam as mãos, placidamente a me observar, uma sombra da noite. Pelo visto, também foram pegos desprevenidos pelo temporal, e me aproximei mais um pouco deles. A criança, por causa da ingenuidade pueril, contemplava-me com toda curiosidade do mundo, eu, uma criatura estranha na chuva, com as mãos por dentro da jaqueta. A mulher, por sua vez, logo apertou a mão da criança, circunspecta, já que não sabia quem é que estava a vir em meio à escuridão. Hesitei; não queria assustá-los. Ela talvez tenha percebido isso, e fixou os olhos em mim, um pouco mais apreensiva ainda. Senti-me suspeita de algum crime, e achei aquilo devidamente engraçado. Sorri aos dois. Não viram, sem sombra de dúvida, o desenlace do gesto que fiz: duas máscaras encobriam o meu rosto – uma preta, parcial, que usava intermitentemente desde o início daquele ano; e outra usual, naturalmente intransponível, inata, que colocava sempre em meu rosto ao entrar em contato com as pessoas.


No fim, decidi não parar, segui adiante. Já estava toda molhada mesmo, não faria diferença entre isso e aquilo; e além disso, ainda tinha uns ímpetos de caminhar, sentir as gotas brandamente tocarem a minha pele, o meu corpo. As batidas pesadas da bota reverberavam harmoniosamente pela rua, enquanto sentia a minha respiração quente e terna, lembrando-me que estou viva, que tenho um coração a bater dentro de mim, que existo. Nunca tinha feito isso antes, e nunca vira alguém fazer; sentia-me uma louca completa, mas estávamos livres, caminhando a sós, eu e a chuva. Tive duas realizações naquele momento: a primeira era que estava muito frio, e com certeza iria ficar resfriada depois de tudo aquilo; e a segunda era que a chuva sempre cai para todos.
 

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"  I felt like I was watching a dream I could never wake up from. Before I knew it, the dream was over."  - Spike Spiegel

 

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